Carreira e Vida Profissional
Assédio moral no trabalho: dá para fazer boletim de ocorrência?
Entenda o que é assédio moral, como identificá-lo e quais caminhos legais e emocionais você pode seguir.

Você chega ao trabalho com o estômago embrulhado. Sabe que, em algum momento do dia, seu chefe vai te humilhar na frente da equipe, ignorar sua presença em uma reunião ou mandar uma mensagem agressiva cobrando algo impossível. Isso acontece com frequência, você já perdeu o sono por causa disso e começa a duvidar de si mesmo. Se essa cena soa familiar, você pode estar passando por assédio moral no trabalho.
Uma das dúvidas mais comuns de quem vive essa situação é: 'Posso fazer alguma coisa formalmente? Dá para registrar um boletim de ocorrência?' A resposta curta é sim, é possível. Mas entender como isso funciona, o que documentar e quais outras medidas existem faz toda a diferença para que você não se sinta perdido diante de uma situação já desgastante.
O que é assédio moral no trabalho, com exemplos do dia a dia
Assédio moral no trabalho é qualquer conduta repetitiva que humilha, constrange, isola ou desgasta emocionalmente um trabalhador dentro do ambiente profissional. A palavra-chave aqui é repetitiva: um episódio isolado de grosseria, embora seja um problema, é diferente de um padrão sistemático de comportamento abusivo.
Na prática, o assédio pode aparecer como um gestor que grita na frente de toda a equipe toda vez que algo dá errado, sempre mirando na mesma pessoa. Pode ser um colega que espalha rumores para prejudicar sua reputação. Pode ser a situação em que você é sobrecarregado com tarefas impossíveis de cumprir, enquanto seus pedidos de ajuda são ignorados. Também é assédio quando alguém passa a te excluir de reuniões, grupos de comunicação ou decisões do setor sem nenhuma justificativa, fazendo você se sentir invisível. Para saber mais sobre como distinguir situações e entender os tipos de abuso no ambiente profissional, o post sobre assédio moral ou sexual no trabalho: o que é e o que fazer pode ajudar a clarear esses limites.
O impacto emocional costuma ser profundo: ansiedade antes de chegar ao trabalho, dificuldade de concentração, insônia, irritabilidade em casa e uma sensação crescente de que você é incompetente, mesmo quando não é. Esse desgaste acontece porque o cérebro interpreta humilhações repetidas como ameaças reais, mantendo o corpo em estado de alerta contínuo, o que esgota a energia física e mental.
O que diz a lei sobre assédio moral no trabalho
No Brasil, o assédio moral no trabalho é reconhecido como ilícito tanto pelo direito civil quanto pelo trabalhista. Em 2022, a Lei 14.457 incluiu explicitamente a prevenção ao assédio moral e sexual como obrigação das empresas com Comissão Interna de Prevenção de Acidentes e Assédio (CIPA). Além disso, o assédio moral pode configurar dano moral passível de indenização na Justiça do Trabalho, e em casos mais graves, como ameaças ou constrangimento ilegal, pode haver enquadramento em tipos penais do Código Penal.
Em alguns municípios e estados brasileiros, existem leis específicas contra o assédio moral no serviço público, com sanções disciplinares previstas para servidores que praticam esse tipo de conduta. Para trabalhadores do setor privado, o caminho mais comum é a Justiça do Trabalho, mas isso não impede o registro de boletim de ocorrência, especialmente quando há ameaças, injúrias ou constrangimento ilegal envolvidos. Consultar um advogado trabalhista ajuda a identificar qual caminho é mais adequado para o seu caso específico.
Sofri assédio moral no trabalho: o que fazer?
O primeiro passo mais concreto que você pode dar é documentar tudo. Guarde mensagens, e-mails, prints de conversas em aplicativos e anote com data, hora e local cada episódio, incluindo o nome de quem estava presente. Esse registro é essencial em qualquer caminho que você escolha seguir, seja interno na empresa, seja pela via legal.
Dentro da empresa, se houver um setor de Recursos Humanos, ouvidoria ou canal de denúncias, registrar a situação formalmente cria um histórico oficial. Isso protege você e obriga a empresa a responder. Se o assédio parte de alguém em posição de liderança e você não se sente seguro para denunciar internamente, ou se a empresa ignora o problema, existem outros caminhos: o Ministério do Trabalho e Emprego aceita denúncias, e o sindicato da sua categoria também pode orientar sobre os próximos passos. Para um guia mais detalhado sobre essas etapas, vale ler o post sobre assédio moral no trabalho: o que fazer quando acontece.
Cuidar da saúde emocional durante esse processo também é parte do que você pode fazer. Falar com pessoas de confiança, manter uma rotina mínima de autocuidado e buscar apoio psicológico pode ajudar a preservar sua estabilidade enquanto você toma as providências necessárias. Isso não é fraqueza; é estratégia.
Dá para fazer boletim de ocorrência por assédio moral no trabalho?
Sim, é possível registrar um boletim de ocorrência (BO) em uma delegacia. O BO funciona como um registro formal de que aquela situação aconteceu e que você comunicou às autoridades. Ele não garante automaticamente a abertura de um processo criminal, mas cria um documento oficial com data e descrição dos fatos, o que tem valor probatório em processos trabalhistas e cíveis.
O registro é especialmente relevante quando o assédio envolve condutas que podem se enquadrar em crimes, como injúria (ofensa à honra de uma pessoa), ameaça, constrangimento ilegal ou perseguição (stalking). Nesses casos, o delegado pode instaurar um inquérito policial. Mesmo que o episódio não configure crime imediatamente, o BO registra o padrão de comportamento ao longo do tempo.
Para fazer o BO, leve tudo que você documentou: prints, anotações com datas, nomes de testemunhas. Descreva os episódios de forma objetiva e cronológica. Em muitos estados, é possível fazer o registro online pelo site da Delegacia Eletrônica, o que pode facilitar o processo. Depois do BO, converse com um advogado para entender se há base para ação trabalhista, cível ou criminal.
Perguntas frequentes
O boletim de ocorrência resolve o problema do assédio moral sozinho?
O BO é um passo importante de documentação e registro formal, mas costuma ser mais eficaz quando combinado com outras medidas, como denúncia interna na empresa, reclamação no Ministério do Trabalho ou ação na Justiça do Trabalho.
O assédio moral pode causar dano psicológico reconhecido legalmente?
Sim, o dano moral por assédio no ambiente de trabalho é reconhecido pela Justiça do Trabalho brasileira e pode gerar direito a indenização, mas cada caso é avaliado individualmente pelo juiz com base nas provas apresentadas.
Posso ser demitido por denunciar assédio moral?
Demitir um trabalhador em represália a uma denúncia formal pode configurar dispensa discriminatória, o que é proibido por lei; consultar um advogado trabalhista antes de qualquer passo ajuda a entender como se proteger nesse processo.
O assédio moral afeta a saúde mental de verdade?
Sim, situações de humilhação e pressão repetitivas no trabalho estão associadas a quadros de ansiedade, esgotamento e outros problemas emocionais; se você percebe que sua saúde está sendo afetada, conversar com um psicólogo pode ser um caminho útil para atravessar esse período.
Se você se identificou com o que foi descrito aqui, seja o desgaste emocional, a dificuldade de concentração ou a sensação de estar constantemente na mira de alguém, pode ser importante conversar com um psicólogo. Profissionais especializados em saúde no trabalho podem ajudar a entender melhor o que você está sentindo e a encontrar formas de se fortalecer durante esse processo. Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui uma avaliação ou acompanhamento psicológico individualizado.