Família e Parentalidade
Adoção unilateral: o que é e como funciona na prática
Entender esse processo pode ser o primeiro passo para regularizar um vínculo que já existe no coração da família.

Imagine um padrasto que levou a criança à escola todos os dias durante cinco anos, que esteve nas consultas médicas, nas festas de aniversário, que a criança chama de pai. Ou uma madrasta que cuida, acolhe e ama um filho que não é biologicamente seu, mas que sente como seu em tudo. Em muitas famílias brasileiras, esse vínculo já existe de fato, mas não existe no papel. A adoção unilateral é o caminho legal para mudar isso.
Diferente do que muita gente imagina, a adoção unilateral não exige que a criança esteja em situação de abandono ou que venha de família em vulnerabilidade. Ela acontece dentro de famílias reconstituídas, ou seja, aquelas formadas após uma separação ou viuvez, onde o novo cônjuge ou companheiro deseja adotar legalmente o filho do parceiro. É um processo com regras próprias, implicações emocionais reais e etapas que vale conhecer antes de começar.
O que é adoção unilateral e quando ela se aplica
A adoção unilateral ocorre quando um dos cônjuges ou companheiros adota o filho biológico do outro. Nesse caso, o adotante passa a ser pai ou mãe legal da criança, com todos os direitos e deveres que isso implica, como herança, nome de família e guarda. O vínculo com o genitor biológico do lado do adotante é criado formalmente, mas o vínculo com o pai ou mãe biológico do lado oposto pode ser mantido ou extinto, dependendo da situação.
Ela se aplica, por exemplo, quando o pai biológico da criança faleceu e o novo companheiro da mãe quer assumir legalmente o papel que já exerce na prática. Ou quando o pai biológico não tem envolvimento com o filho e concorda em abrir mão do poder familiar, que é o conjunto de direitos e obrigações que os pais têm sobre os filhos menores. Cada caso tem suas particularidades, por isso o acompanhamento jurídico especializado é indispensável desde o início.
Para saber mais sobre o processo de adoção de forma mais ampla, o post Adoção de criança: o que esperar e como se preparar traz uma visão geral muito útil para quem está no começo dessa jornada.
O que acontece com o vínculo com o pai ou mãe biológico
Essa é uma das dúvidas mais comuns e também uma das que mais gera ansiedade nas famílias. Na adoção unilateral, em geral, o vínculo com o genitor biológico do lado que não está adotando é extinto. Na prática, isso significa que o pai biológico que não tem envolvimento com a criança deixa de ter direitos e obrigações legais sobre ela. É uma decisão com consequências permanentes e irreversíveis, tanto do ponto de vista jurídico quanto emocional.
Por isso, o processo precisa passar pelo Judiciário. Um juiz avalia se a adoção atende ao melhor interesse da criança, que é o princípio central de qualquer decisão envolvendo menores. A criança ou adolescente com mais de 12 anos precisa ser ouvida diretamente pelo juiz e dar seu consentimento. Isso porque, por mais que os adultos estejam alinhados, o que a criança sente sobre essa mudança importa e precisa ser escutado com cuidado.
Como o processo afeta a criança emocionalmente
Para os adultos, a adoção unilateral pode parecer apenas uma regularização de algo que já existe. Para a criança, porém, pode despertar sentimentos complexos que merecem atenção. Ela pode sentir alívio e alegria por ter o vínculo formalizado. Mas também pode sentir luto pela figura do pai ou mãe biológico que se ausenta definitivamente, mesmo que essa pessoa nunca tenha estado presente de forma consistente.
Crianças mais velhas e adolescentes costumam ter mais perguntas e conflitos internos sobre identidade: 'Quem eu sou agora? Posso amar o padrasto como pai sem trair meu pai biológico?' Essas questões são legítimas e comuns. O papel da família é criar espaço para que essas dúvidas sejam faladas, sem pressa para que a criança sinta o que os adultos esperam que ela sinta.
Vale lembrar que o processo de adoção, mesmo o unilateral, envolve uma avaliação psicossocial feita por equipe técnica do Judiciário. Esse estudo, que inclui entrevistas com a família e com a criança, busca entender se o ambiente é saudável e se a adoção realmente beneficia quem mais importa nessa história. Diferente do que acontece em situações como a adoção à brasileira, aqui o caminho é sempre formal e protegido por lei.
O que a psicoterapia pode oferecer nesse momento
A adoção unilateral é um evento que reorganiza a família em vários níveis: legal, afetivo e de identidade. Por isso, o apoio psicológico pode ser valioso tanto para os adultos quanto para a criança, antes, durante e depois do processo.
Para o adotante, a terapia pode ajudar a lidar com medos comuns, como o de não ser aceito pela criança, ou a pressão de 'provar' que é um bom pai ou mãe. Para o genitor biológico que permanece, pode ajudar a processar a complexidade de compartilhar a parentalidade com um novo parceiro. Para a criança, a psicoterapia oferece um espaço seguro para falar sobre confusões de identidade, sentimentos em relação ao pai ou mãe biológico ausente e sobre o que essa mudança significa para ela.
Um ponto prático: se a criança começar a apresentar mudanças de comportamento, como agitação, isolamento, queda no rendimento escolar ou choro frequente após a adoção ser comunicada ou concluída, isso pode ser um sinal de que ela precisa de apoio para processar o que está vivendo. Esses sinais merecem atenção, e conversar com um psicólogo pode ajudar a entender o que está acontecendo. O post Adoção ou doação: entenda a diferença e o que sentir também aborda os sentimentos que surgem nesses processos.
Perguntas frequentes
O pai biológico precisa concordar com a adoção unilateral?
Em geral, sim, o consentimento do genitor biológico é necessário. Há exceções previstas em lei, como nos casos em que o pai ou mãe biológico desconhecido, falecido ou destituído do poder familiar pelo Judiciário.
A criança mantém o sobrenome antigo depois da adoção unilateral?
O nome pode ser alterado para incluir o sobrenome do adotante, mas isso é definido no processo judicial, levando em conta o interesse da criança e, quando ela tiver mais de 12 anos, sua própria vontade.
Quanto tempo dura o processo de adoção unilateral?
O prazo varia bastante de acordo com a comarca, a complexidade do caso e a necessidade de estudos psicossociais, por isso não há um tempo fixo; o acompanhamento de um advogado especializado ajuda a entender o que esperar em cada etapa.
A criança pode ser adotada mesmo que o pai biológico não seja localizado?
Em situações onde o pai biológico é desconhecido ou não localizável, o processo segue com providências específicas determinadas pelo juiz, como a publicação de editais, antes de seguir em frente.
Se você está pensando em iniciar um processo de adoção unilateral ou percebe que alguém da família, especialmente a criança, está com dificuldade para lidar com as mudanças que esse processo traz, pode ser importante conversar com um psicólogo. Profissionais especializados em dinâmica familiar e adoção podem ajudar a entender melhor o que cada pessoa está sentindo e a encontrar formas de atravessar esse momento com mais segurança e acolhimento. Este conteúdo é educativo e não substitui uma avaliação ou acompanhamento psicológico.